Há livros que nos tocam profundamente e este é sem dúvida alguma, um deles. Talvez um dos melhores livros que li até hoje. É impossível descrever aquilo que é a reflexão filosófica da vida, escrita da forma mais descomplicada, através da teia de relações humanas e das contradições que existem em cada um de nós.
O essencial da vida, do amor e do Homem na “Insustentável Leveza do ser”.
Apenas dois excertos que considero fantásticos (Vale a pena ler até ao fim):
"Não há forma nenhuma de se verificar qual das decisões é melhor porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida é já a própria vida?"
“(...)Mas, desde que vivia com Tereza, a sua actividade erótica esbarrava com várias dificuldades de organização; não lhe podia reservar senão uma estreita faixa de tempo (entre a sala de operações e a chegada a casa) que, embora explorada intensivamente (como o montanhês faz com a sua estreita parcela), estava longe de poder comparar‑se com o espaço de dezasseis horas com que subitamente se via presenteado. (E digo dezasseis porque mesmo as oito horas que passava a lavar vidros lhe ofereciam mil e uma oportunidades de fazer novos conhecimentos com empregadas de balcão, caixeiras ou donas de casa e de marcar encontros com elas.)
O que procurava em todas essas mulheres? O que é que o atraía? O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?
De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma ideia de como seria depois de despida (aqui a sua experiência de médico completava a do amante), restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexactidão da ideia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava o sossego. E, depois, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez; vai para além dela: que caras fará enquanto se despe? o que dirá enquanto faz amor? em que tom suspirará? que ritmo se imprimirá no seu rosto no momento da volúpia?
O que o eu tem de único encontra‑se precisamente naquilo que o ser humano tem de inimaginável. Só consegue imaginar‑se o que é idêntico em todos, o que é comum a todos. O eu individual é aquilo que se distingue do geral, e é, portanto, aquilo que não pode ser adivinhado nem calculado antecipadamente, aquilo que primeiro é preciso desvendar, descobrir, conquistar no outro.
Tomás, que nos últimos dez anos da sua actividade profissional se ocupara exclusivamente do cérebro, sabia que nada é mais difícil de distinguir do que o eu. Entre Hitler e Einstein ou entre Brejnev e Soljenitsyne há muito mais semelhanças do que diferenças. Dizendo‑o por números, entre eles há um milionésimo de diferente e novecentos e noventa e nove mil novecentos e noventa e nove milionésimos de semelhante.
Tomás vivia obcecado pelo desejo de descobrir esse milionésimo e de apoderar‑se dele, e esse era o sentido que dava à sua obsessão por mulheres. Não vivia obcecado pelas mulheres, vivia era obcecado pelo que cada uma delas tem de inimaginável ou, por outras palavras, vivia obcecado por esse milionésimo de diferente que faz com que uma mulher se distinga das outras. (Talvez fosse aí que a sua paixão de cirurgião se encontrava com a sua paixão de sedutor. Nunca largava o seu bisturi imaginário, mesmo quando estava com as amantes. Desejava apoderar‑se de qualquer coisa que estava profundamente enterrado nelas e por causa da qual tinha de rasgar os seus invólucros superficiais.)
Claro que temos o direito de perguntar por que é que era na sexualidade que ia procurar esse milionésimo de diferente. Não poderia antes encontrá‑lo, por exemplo, na maneira de andar, nos gostos culinários ou nas preferências estéticas de cada uma?
O milionésimo de diferente está presente em todos os aspectos da vida humana, mas é publicamente desvendado em todo o lado, não precisa de ser descoberto, não é preciso nenhum bisturi para chegar a ele. O facto de uma mulher gostar mais de queijo do que de doces e de outra detestar couve‑flor é com certeza um sintoma de originalidade, mas também se torna imediatamente evidente que essa originalidade é insignificante e vã e que não seria senão uma perda de tempo alguém interessar‑se por ela e conferir‑lhe algum valor.
Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não é publicamente acessível e tem de ser conquistado. Ainda há meio século, este tipo de conquista exigia que se lhe dedicasse muito tempo (várias semanas e, às vezes, alguns meses) e o valor do objecto conquistado era proporcional ao tempo consagrado à sua conquista. Mesmo nos dias que correm, embora o tempo da conquista tenha diminuído consideravelmente, a sexualidade é para nós como que o cofrezinho das jóias onde se encontra guardado o mistério do eu feminino.
Não era, portanto, de forma nenhuma, o desejo da volúpia (a volúpia aparecia por assim dizer como brinde), mas o desejo de apoderar‑se do mundo (de abrir com o bisturi o corpo jazente do mundo) que o fazia andar atrás das mulheres. "
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8 comentários:
Um milionésimo pode ser grande demais para se descobrir na totalidade. Cada vez que se tenta chegar ao fim da descoberta percebe-se que o milionésimo é maior do que julgávamos. Não é preciso saltar de mulher em mulher a um ritmo vampiresco.
Beijo
Sua maluca!
Estou brincando... vou aceitar o conselho e lê-lo.
A vida é mesmo um ensaio, não há grandes estreias nem lugares marcados previamente! Às vezes parece mais um teste surpresa!!!
Beijinhos
P.S. - Quando apareces no meu cantinho? É um bocadito mais fútil e corriqueiro, mas enfim... também precisa de carinho!
Querida Lili,
Tens toda a razão, tenho falhado muito contigo...mas não totalmente, porque visito o teu cantinho. O problema é que quando tento escrever alguma coisa, ou aparece alguém ou o telefone toca ou outra coisa qualquer que atrapalha aquilo que realmente se deveria estar a fazer no horário de trabalho :).
Mas sem dúvida alguma o teu cantinho é muito especial...um calorzinho num dia de chuva ;)
Beijinhos,
PS.: Fica a promessa de lá deixar uns comentários. Não hoje porque gastei o tempo todo com este :))
Fico à espera!
Mil beijinhos :)
Olá Catita, adivinha quem sou... Tou a precisar de ler, não me queres emprestar o teu livro? Eu prometo que depois até te devolvo o teu CD de Yoga... Bjinhus..
Olá Catarina!
Este livro é um dos meus favoritos! Foi o livro que me fez voltar a acreditar na leitura, que me trouxe a fé em ler. Pode parecer parvo, mas nunca li nada como isto. E sei que quando precisar de acreditar outra vez na leitura, é só voltar a lê-lo.
A propósito, gostas de Luís Sepúlveda?
Olá Sandra!
Muito obrigada pelo teu comentário. Este livro tem mesmo algo de especial.
Nunca li Sepúlveda, apesar de já me terem falado muito dele. Nos dias que correm é cada vez mais dificil arranjar tempo para a leitura de qualquer forma estou sempre aberta a sugestões :)
Beijinho grande
Querida Clorofila...
Infelizmente já não tenho o livro, mas tenho um espectacular para ti...quando nos encontrarmos mostro-te..ihihihiih
Beijinhos
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